Ciranda
O Uso Terapêutico das Danças Circulares segundo a perspectiva gestáltica
Acadêmica: Beatriz Nantes¹
Orientadora: Vera Nice Assumpção do Nascimento
Resumo
Este artigo pretende fazer uma leitura gestáltica sobre a utilização terapêutica das Danças Circulares levando em consideração suas afinidades filosóficas e seu potencial de comunicação e expressão do indizível.
Palavras-chave: Danças Circulares, gestalterapia, linguagem do movimento, terapia corporal.
Abstract
This article intends to make a gestalt reading about the therapeutic use of Spiral Dances considering their philosophical affinities and potential for communicate and express the unspeakable.
Keywords: Spiral dance, gestaltherapy, language of the movement, bodytherapy
¹ Formada em Danças Circulares pelo focalizador William Valle na turma de Campo Grande, MS do ano de 2008.
Introdução
A dança sempre esteve presente na cultura humana, constituindo uma das suas primeiras formas de manifestação. Stewart (2000), afirma que o movimento foi a primeira linguagem do homem e ainda é nossa maior linguagem quando queremos expressar algo que vai além das palavras. É através do movimento que o homem pode expressar ritmicamente o que sente. Na dança, há uma margem tênue entre a energia/sexualidade, o prazer/lúdico e a religiosidade/misticismo. A dança abrange a linguagem do sagrado e do profano.
A sistematização das Danças Circulares é criação do bailarino alemão Bernhard Wosien que no final da década de 50 iniciou um estudo sobre as danças tradicionais de cada povo ao redor do mundo. Com isso, mostrou a importância das danças tradicionais de cada região, que propiciam a coesão entre as pessoas e carregam em si movimentos corporais que expressam os sentimentos e necessidades de cada cultura e época.
O círculo é um lugar continente. Nele, cada sujeito se expressa à sua forma, utilizando a linguagem do movimento e a música como ambrosia, para que o grupo suporte seus conteúdos. Assim, é possível fazer das danças circulares um instrumento terapêutico no qual o foco é a sensação e a revelação do corpo e suas formas, sendo possível observá-lo e compreendê-lo em seu diálogo com o mundo quando expectador e senti-lo e vivenciá-lo enquanto dançarino.
Sendo a gestalterapia concebida por pensadores e clínicos envolvidos em disciplinas artísticas, e sua técnica voltada para o aqui e agora, a percepção estética e o estudo da forma, é fácil fazer a associação da terapia com as danças circulares, pois para esta abordagem elas seriam uma forma de promover e fazer a manutenção do funcionamento ideal. Segundo Laura Perls (1992), a terapia é mais arte que ciência e necessita de intuição e sensibilidade, o que vai além da abordagem associativa. Para ela, ser artista é funcionar de modo holístico.
A afirmação de Laura Perls (2002) de que os conceitos da gestalterapia são filosóficos e estéticos, é a expressão da vivência que orienta em direção à fenomenologia, o que oferece elementos para uma gestalt voltada à experimentação.
Desta forma, este artigo preconiza investigar bibliograficamente a viabilidade de unir a prática das danças circulares à teoria da Gestalterapia e propiciar momentos terapêuticos que auxiliem o cliente em seu universo biopsicossocial e sirvam de instrumento para a awareness.
1.0 Dançando a vida
“O círculo imita os aspectos essenciais da vida”! Lynn Frances
As origens das danças circulares se confundem com as origens da própria humanidade. Em círculo, a comunidade se socializava, celebrava as conquistas individuais e grupais, os ciclos da vida e da natureza. Havia uma espécie de sinergia entre a natureza das coisas e o homem, de forma que as partes se integravam e compunham um todo repleto de contato.
Grof (2000) refere que paredes de famosas cavernas francesas abrigam pinturas rupestres que sugerem a presença da dança. Uma delas é La Gabillou , que possui uma figura em movimento que foi denominado “o dançarino”.
Para a Gestalterapia o homem é um ser relacional e originalmente inteiro. Ele faz contato com o mundo a partir de uma corporeidade intencional, reconhece suas necessidades, manipula a situação para satisfazer-se e retorna ao estado de equilíbrio.
Ribeiro (1997) refere-se ao contato da seguinte forma:
O modo como uma pessoa faz contato consigo e com o mundo expressa igualmente o grau de individuação, maturidade e auto-entrega com que vive, em um dado momento, porque o contato é a expressão experienciada e visível da realidade interna de si mesmo. Tudo na natureza é contato e sem ele tudo perde sentido, agoniza e morre. (Ribeiro, pg 15, 1997)
Segundo Ribeiro (1997), a Gestalterapia é centrada no contato e na natureza das relações. O contato é o fenômeno pelo qual ocorre a ação humana, é um conceito mais amplo de self e por este motivo é a matéria prima da relação terapêutica.
A dança possibilita ao corpo conquistar novos espaços, novos poderes físicos, novas relações com a alteridade. Na dança instala-se o diálogo com o mundo e a possibilidade de transcender criativamente os limites corporais. Valéry (1980) afirma que, quando o corpo está em movimento ou em ação, ele instala um modo de “ser no mundo”.
O foco na experiência é a busca central da fenomenologia. A ênfase na experiência pré-reflexiva é a possibilidade do retorno a unidade do homem, rompido entre razão e sensibilidade, mente e corpo.
As danças celebravam eventos significativos para a comunidade e eram consideradas ritos de passagem. Segundo Wosien (apud Frances, 2004), é preciso dançar e ficar totalmente concentrado para se descobrir o significado e o poder de cura das danças circulares. Só assim pode-se revelar sua origem religiosa – o caminho para a unidade. Ainda neste contexto, Wosien (1996 apud Almeida, 2005), revela que para o homem primitivo a dança era a maneira natural de se harmonizar com o cosmos, pois o movimento rítmico detém a chave da criação e da reintegração, o que possibilita estar em contato com a fonte da vida.
Segundo Latner (1973), a teoria holística, um dos pilares da gestalterapia, tem como base o conceito de que a natureza é um todo coerente e unificado; os elementos orgânicos e inorgânicos do universo existem juntos em um processo contínuo e mútuo de coordenação de atividade. Cada um dos elementos é ele próprio, um processo coordenado integral inserido no todo mais amplo.
O homem chamado “primitivo” vivia sua relação com o grupo e com a natureza de forma estreita, não havendo destaque, apenas a consciência do pertencimento a este mundo. Este modo de estar assemelha-se ao modo de relação Eu-Tu (relação) e Eu-Isso (experiência) descrito por Martin Buber, no qual há um diálogo genuíno, alternante e rítmico entre os homens e entre o homem e o mundo.
O homem simplesmente reproduzia o que via a sua volta, copiando na forma de dança e arte o gracejo das folhas ao vento, a dança das águas nas corredeiras, o ballet das aves no céu e tudo mais que lhe era admirável.
Vignoli (2000) sintetiza de forma pertinente:
“No modo Eu-Tu, a pessoa relaciona-se com o outro sem intenções, entrega-se à vivência da relação e abre-se à alteridade do outro sem querer transformá-lo ou mesmo conhecê-lo racionalmente. Há uma vivência imediata da relação na qual o Eu e o Tu constituem-se reciprocamente ao travar o “diálogo genuíno”. Nesse momento, pode nascer a palavra de cada um, ou pode acontecer o silêncio da palavra não formulada, mas presente em estado indiferenciado, pré-verbal. Mas esta vivência logo transforma-se na relação Eu-Isso, em que ocorre a objetivação e o distanciamento do Eu em relação ao parceiro, que passa à condição de Isso. Nesse momento, o Eu se coisifica e se diferencia, tornando-se também , um Isso. (2000, p. 6).
Neste tipo de relação, natureza e sociedade representam uma oposição que se inter-relaciona em um processo contínuo de reciprocidade na forma de arte, metáforas, símbolos, mitos, cerimônias e comportamentos que espelham que homem e natureza participam da construção do cosmos. Dançar é aprazível, pois representa o ser em harmonia com o todo, pleno e natural.
Em uma passagem dos índios norte-americanos, referida por Frances (2004), é ilustrada a importância do movimento em círculo:
Tudo que é feito no mundo é feito em círculos. O céu e redondo e já ouvi dizer que a terra é redonda como uma bola, assim como todas as estrelas. O vento no auge de sua força rodopia. Os passarinhos fazem seus ninhos em círculo, pois a religião deles é a mesma que a nossa. O sol aparece e some depois de formar um círculo, e a lua faz o mesmo. Ambos são redondos. Mesmos as estações formam um círculo, mudando e voltando para o mesmo lugar. A vida do homem também é circular e se move. Nossas ocas são redondas, como são os ninhos dos passarinhos, e são sempre colocadas em círculos, os arcos da nação, o ninho de muitos ninhos onde o Grande Espírito quis que chocássemos nossos filhos.
Sachs (1943) refere-se às danças medicinais realizadas ainda hoje na cultura indígena. Nelas, o enfermo é colocado no centro do círculo e o espírito da doença é subjugado pelo êxtase dos dançarinos. Shaden (apud Pellegrini Filho, 1986) ressalta que nas culturas primitivas as danças tinham caráter sagrado, que de certa forma se manteve até meados do século XVIII.
Assim, pode-se dizer que a dança circular representava a vida em sua plenitude, sendo uma forma de acessar além consciência em um êxtase que podia ser sentido pelos dançarinos e os demais componentes do círculo, sacralizando o movimento a um único ritmo.
Ritmo e dança comungam. A dança é considerada uma forma de organização, comunicação e expressão social da cultura humana que segundo Gudmundson (1989) oferece a oportunidade para expressão das tradições e rituais da vida.
O poder da dança reside na capacidade de criar harmonia no grupo e estimular o senso comunitário e de cooperação. As mãos dadas, os sons e movimentos compassados estimulam os órgãos sensoriais e criam a sensação de conforto e familiaridade, conferindo vida à dança e a conexão com a essência dos bailarinos.
A experiência corporal possui componentes emocionais do sujeito; experiências estas que são fatores determinantes na sabedoria corporal e dos mecanismos de manutenção da vida.
2.0 Dançando Mandalas – O simbolismo do círculo
O círculo, enquanto forma geométrica é muito comum na natureza e quando nos dispomos em seu formato, imitamos os aspectos essenciais da vida. Nele, não há início nem fim, apenas continuidade. Quando dançamos em círculo, refletimos os ciclos e o que está a nossa volta, os símbolos de nossa existência.
Para Frances (2004), dançar em círculo representa a totalidade e cura por refletir a unidade básica do Universo. A energia concentrada no centro do círculo por causa da junção das mãos cria, de imediato, um forte impulso. Esta energia flui pelo círculo em todas as direções.
Ainda para Frances (2004):
A natureza simbólica da dança de roda (o todo, a cura), fazendo os mesmos movimentos (unidade), sendo iguais (harmonia) e achando diversão como fruto do esforço próprio (liberdade), parece ser a essência da Dança Circular.
Ao considerar o simbolismo do círculo, nos transportamos para além da simples geometria da forma e alcançamos aspectos mais holísticos da vida. As danças se transformam no microcosmo de outras partes de nossa vida e podem nos ensinar acerca de nós mesmos e dos ciclos naturais. (Frances, 2004, pg. 80)
As danças em círculo são a manifestação simbólica do indivíduo, um veículo que possibilita o ‘religare’ em movimento, uma ferramenta de auto-conhecimento e formação de campos conscienciais.
Quando dançamos em grupo, executamos as mesmas ações ao mesmo tempo, produzimos figuras que se assemelham às mandalas (círculo em sânscrito) tão presentes em várias culturas. Nestas mandalas dançantes, traçamos no ar e no chão formas que dão origem a símbolos como a cruz, a estrela, o trevo, entre outros.
Embora a maioria das pessoas não acesse esta informação e a mesma, neste contexto, não tenha uma intenção religiosa, estes símbolos fazem parte de nossa história e ao serem dançados são reconhecidos pelo corpo enquanto padrões de equilíbrio.
Quando há dança, é necessário compreender que há um corpo envolvido, sendo este corpo nosso patrimônio primeiro e, portanto, sagrado. Para entender a expressão corporal, é necessário reconhecer o complexo sistema social e cultura que envolvem o indivíduo e o quanto estes fatores interferem nos padrões de comportamento, movimento e nos próprios sentidos. Ao corpo se aplica as crenças e sentimentos que estão na base da vida social humana.
Segundo Henri Bergson (1999):
“A memória do corpo, constituída pelo conjunto dos sistemas sensório-motores que o hábito organizou é, portanto, uma memória quase instantânea a qual a verdadeira memória do passado serve de base. (...) Para que uma lembrança reapareça à consciência, é preciso com efeito que ele desça das alturas da memória pura até o ponto preciso onde se realiza a ação”.
Segundo Mauríce Béjart (apud Garaudy, 1980 apud Ummann), a dança por si só é um rito que pode ter caráter sagrado ou social. Ele ainda completa que a dança profana é aquela que trata do grupo e suas convenções sociais e a dança sagrada é aquela que trata do incompreensível e a busca por algo maior. As Danças Circulares são sagradas quando o participante entra em contato com sua essência, tornando-se íntegro e percebendo seu Eu Divino e o Divino no Outro.
Para Dantas (1999), a significação encontra-se sob a linguagem, à sombra e ao abrigo desta. Depende dela, mas também sabe relacionar-se com ela, instigá-la ou deixá-la perplexa, quando propõe novas maneiras de significação.
A dança é linguagem e por isso é preciso buscar em nossa dança particular a nossa linguagem, sem necessidade de recorrer a qualquer técnica em específico, pois o movimento enquanto forma de expressão pode ser entendido pela coletividade.
Dantas (1999) afirma que o signo é portador de expressão e conteúdo, sendo o significante pertencente ao plano da expressão e o significado ao plano do conteúdo. O significante é o mediador e precisa da matéria para transportar o signo. No caso do signo gestual, a matéria seria o movimento.
O símbolo é um elemento essencial no processo de comunicação, ele não é inventado, ele aparece, encontrando-se difundido pelo cotidiano e pelas mais variadas vertentes do saber humano. Ele intensifica a relação com o transcendente, transformando a energia psíquica e fazendo com que os conteúdos inconscientes possam ser assimilados pela consciência. Para Jacob (1991), ele mantém a vida psíquica em constante fluxo e a leva adiante do sentido do seu objetivo determinado pelo destino.
Para Newman (1996), a consciência, os conceitos acerca da compreensão do mundo, a religião, o rito, o culto, a arte têm sua origem no símbolo e as imagens simbólicas são a “fonte criativa do espírito humano”.
Para Ciomai (1994), nos processos de awareness criativa o indivíduo aguça e percebe seus sentidos e faz relação com os significados, percebendo e organizando suas experiências em um contínuo que sempre é acompanhado por novas in-formações e formação de “figuras” na percepção que criam um novo saber.
2.1 Símbolos em Movimento
Rudolf Laban dedicou-se ao estudo do movimento humano, e criou sistemas de análise e exploração do movimento, certo de que este movimento era constituído pelos mesmos elementos, independe de sua aplicação. Em seus estudos deu ênfase à parte psicológica, física e espiritual do movimento, buscou a naturalidade e o elo entre o corpo e o espírito. Laban surge entre o cientifismo e os pensamentos de “desordem e caos” de Nietzsche e Artaud, possibilitando um equilíbrio entre extremos.
Por este estudo se tratar apenas de uma referência teórica para prática do focalizador (pessoa que instrui e coordena as pessoas nas rodas de Danças Circulares), citarei, mas não detalharei, a teoria de Laban. Isso porque dentro do movimento das Danças Circulares não se busca a perfeição do movimento e sim a expressão que o envolve.
“Corêutica” é a denominação dada por Laban para o estudo do movimento no espaço, tanto do corpo em ação (movimento perceptível) quanto do corpo aparentemente parado (movimento imperceptível), conhecida também como “arquitetura do movimento”. Rudolf era arquiteto e o estudo sobre o movimento foi influenciado por este conhecimento aplicado aos desenhos geométricos platônicos.
Esta ciência diz respeito aos pontos de referência no espaço, em relação ao corpo e ao espaço. Suas ferramentas de exploração são: a Kinesfera, tensões espaciais; progressões; formas; projeções; pelas diferentes dimensões; pelos diferentes planos; pelo volume; direções; movimentos gestuais e posturais. Através do estudo das dimensões espaciais e dos planos vertical, horizontal e sagital, surgem os estudos sobre o padrão axial e das formas do corpo no espaço a partir da exploração de cinco (05) formas geométricas perfeitas: o tetraedro, octaedro, cubo, icosaedro e dodecaedro.
A aplicação deste estudo pode promover o desenvolvimento da percepção dos sentidos cinestésicos e visuais, além de iniciar o processo de ampliação espontânea e criativa do repertório de movimentos individuais. O desenvolvimento da percepção da ocupação espacial individual tem como conseqüência o desenvolvimento dos aspectos sociais do espaço individual e grupal.
A “Eurikinética” é o estudo das dinâmicas e qualidades expressivas dos movimentos e é através deste estudo que podemos perceber a qualidade de um movimento e imprimi-lo de significados. A “Eurikinética” só é separada da “Corêutica” para fins didáticos.
Laban propõe o sistema Effort-Shape, que é um sistema de descrição qualitativa e de estilo da dinâmica do movimento. Neste sistema temos 4 (quatro) fatores básicos do movimento: fluência, peso, espaço e tempo. Estes fatores são reforçados por esforços completos ou ações básicas do movimento: deslizar, flutuar, pontuar, pressionar, torcer, sacudir, bater e chicotear. Estas características constituem o repertório básico do movimento individual humano.
Segundo Silva (2004):
Na arte do movimento, variações singelas no peso, na fluência e uso do espaço acarretam em configurações ou conotações diferenciadas de expressão.
Os estudos de Laban são interessantes para a leitura gestáltica das Danças Circulares, pois se referem justamente à figura em relação ao fundo e quantificam a qualidade do movimento, possibilitando uma leitura simbólica e contextual do que acontece com cada dançarino em cada encontro.
Com a dança é possível buscar significados através da expressão e dos símbolos nela contidos. Assim possibilitamos que os movimentos sejam plenos de sentido e sentimento.
Para Stueck e Taylor (1989), a dança possibilita a capacitação para a comunicação de idéias, imagens e símbolos, personalidade e sentimentos em forma de movimento.
Ao dançar é possível parar com a atividade puramente mental e reflexiva e prestar atenção no corpo, como nos sentimos naquele momento, como está nosso corpo, como está nosso estado emocional, nosso ritmo individual e o tônus muscular, com percepção de pontos de tensão e estresse. Também podemos perceber aqueles que nos rodeiam, nossa relação com o outro e com tudo o que nos cerca.
Neste sentido as Danças Circulares buscam estabelecer as condições corporais favoráveis à manifestação, dando ao dançarino a possibilidade de mergulhar em seu território pessoal e reconhecer o potencial de expressão de seu corpo. O corpo durante a dança assume diferentes qualidades e revela conteúdos orgânicos das emoções e das experiências que habitam os compartimentos do corpo-memória.
Gunther e Schaefer (1975) descrevem:
... através da dança o ser humano penetra em sua própria existência. Ele consegue se libertar de todas as influências externas, tornando-se completamente ele mesmo. Dançando ele vivencia seu profundo Eu, vincula seu viver com o mundo, com o todo e com Deus. Dançando ele se sente como parte do Cosmos.
Para Scalin (1989), a dança possibilita um melhor desenvolvimento do “eu”. Para Murray (1989), é um instrumento de fortalecimento do ego que melhora o auto-conceito, a auto-estima e identidade.
2.2 Ritmo e musicalidade no movimento
Segundo Fux (1988), através da música é possível interpretar ritmos internos não audíveis e os externos que nos rodeiam. A expressão do corpo e dos ritmos que são produzidos individualmente e em grupo, pode fazer com que os enfermos compreendam o mundo da linguagem não verbal. O corpo quando se expressa livremente através da dança não pode mentir.
Deleuze (2002) refere-se à música da seguinte forma:
A música atravessa profundamente nosso corpo e nos coloca uma orelha no estômago, nos pulmões. Ela pode ser conhecida nas ondas e pelo sistema nervoso. Mais precisamente ela treina nossos corpos por meio de outro elemento. Ela desembaraça o corpo de sua inércia, da materialidade de sua presença. Ela “desencarna” os corpos. (DELEUZE, 2002, pg.55)
O som dos tambores, canções e técnicas musicais antigas são como ferramentas que auxiliam na alteração do estado de consciência. Estudos laboratoriais indicam que certos tipos de som alteram a atividade elétrica do cérebro (Jilek 1974; Neher, 1961/1962 apud Grof, 2000).
Algumas técnicas musicais possibilitam que a percepção da realidade seja modificada. Para Pozatti (2003), a consciência é um movimento entre o denso (manifesto) e o sutil (imanifesto), e a partir do estado ampliado da consciência a própria totalidade e suas diferentes realidades podem ser re-significadas.
Nos encontros de Danças Circulares, os dançarinos são colocados em contato com músicas de diversas etnias em vários tempos da história. Este encontro entre o contemporâneo e o antigo possibilita a vivência de sons diferentes através do corpo, seu movimento e sua memória, referida pela gestalterapia como transgeracionalidade. O corpo reconhece o som e molda o movimento instintivamente para que todo o sistema biológico gire em consonância com os estímulos do ambiente externo.
Na dança, seja durante a criação de uma coreografia ou na execução de coreografias antigas, o bailarino acessa os mecanismos de atenção, percepção, memória, além de exercitar o pensamento metafórico e criativo. Apesar de raramente haver consciência desta atividade, por parte do bailarino, a qualidade estética do movimento é altamente influenciada pela fluidez destes mecanismos internos.
Michael Corballis (2001), propõe que “somos o que nos lembramos” pois a memória consiste em um conjunto de procedimentos que permitem manipular e compreender o mundo, levando em conta o contato atual e as experiências individuais. Corballis sugere que podemos pensar que dançamos como e o que nos lembramos. Levando em consideração esta colocação, podemos reforçar que os hábitos posturais dizem como o indivíduo se vê, pois é exatamente desta mesma forma que ele se coloca fisicamente no mundo.
Perls (1992) considera o trabalho com o corpo essencial e, junto ao conceito de totalidade proposto por Kurt Goldstein afirma que os distúrbios adquiridos durante o desenvolvimento interferem na orientação e liberdade do organismo em se expressar e manipular o ambiente. Para ela, trabalhar com a expressão corporal significa trabalhar com a awareness.
Para Merleau-Ponty (1999), o homem não possui nenhuma consciência objetiva sobre o movente e o móvel, pois reconhece o movimento como momentos do passado, sem nenhuma evolução expressa, porque o mundo é feito de transições e não somente de coisas, pois o campo de visão não é um contorno objetivo e delimita uma relatividade em suas relações. Enxergamos o mundo á partir da relação que estabelecemos com ele.
Ainda segundo Merleau-Ponty (1999), a maneira como estabelecemos as relações no ambiente é o que determina a qualidade do movente e fundo. A sensação de que movente e fundo já estão previamente determinados no espaço surge da relação constituída do campo de visão, que é constituído pelas referências ancestrais que se dão a partir do ponto de ancoragem.
Deleuze (2002) refere-se à sensação como o índice corporal sensível relacionado á figura, uma face escondida que envolve o sistema nervoso, o movimento vital, o instinto, o temperamento e a face voltada para o objeto caracterizado pelo local do evento e o evento em si. A sensação é ser no mundo tal qual estudado pelos fenomenólogos. “A figura é a forma sensível relacionada à sensação”.
Através da dança é possível fazer a escuta silenciosa do corpo que dança, observando cada movimento e analisando os movimentos predominantes, rompendo com os movimentos condicionados pela rotina e preparando-o para a vivência da sensação consciente.
Para Laban (1978) o movimento é um processo dinâmico de contínuas mudanças, uníssono e sempre presente. O indivíduo é o inventor de seu movimento, pois se movimenta com a finalidade de se satisfazer. O movimento é um atributo essencial a vida e as formas e ritmos de quem se move, revelam também uma atmosfera, um lugar, uma época. Circunstâncias internas e externas interferem no movimento e revelam seus aspectos tangíveis e intangíveis.
Para Gaiarsa (1995), a postura revela o modo como os seres humanos expressam suas atitudes psicológicas ao receber e selecionar estímulos, avaliar e responder a situações.
Gaiarsa (1995) afirma que, a dança aplicada à terapia é um exercício físico lúdico que exerce efeito de auto-massagem através das contrações musculares. Segundo ele, os músculos não só renovam os próprios líquidos orgânicos como, também pela variação de seus volumes ao se contraírem massageiam os tecidos.
Verificando as mudanças nas posturas corporais que acompanham a expressão das emoções, Reich (1998) classificou as blindagens do caráter enquanto uma couraça caracterial psíquica que corresponde a uma couraça muscular somática de corrente vegetativa. Conforme Raknes (1988), estas couraças musculares podem provocar espasmos, cãibras e tensões, sendo assim a expressão corpórea das emoções e idéias.
Reich (1995), afirma:
/.../ quando remontamos analiticamente à origem desta “couraça” de caráter, vemos que ela tem também uma função econômica definida. Tal couraça serve, por um lado, de proteção contra estímulos externos, e por outro, consegue ser um meio de controle sobre a libido /.../ nas formações reativas neuróticas, nas compensações, etc.(REICH, 1995, pg. 56)
As couraças vegetativas são mecanismos limitadores da pulsação da energia vital que respondem automaticamente a alguns estímulos externos tendo como função manter e preservar a identidade da vida.
Os músculos, quando encouraçados, deixam de ter a livre capacidade de expressão. No plano psíquico, paralela à couraça muscular, ocorre a couraça caracteriológica.
Para Calegari (2001), a couraça caracteriológica é responsável por nossa forma física e comportamental e restringe a percepção e pensamento, estruturando idéias e interpretações específicas sobre o mundo.
Na visão da Psicologia Biodinâmica, as couraças além de serem musculares, se estenderiam para as vísceras e tecidos. O desbloqueio se dá através dos recursos técnicos de Massagem Biodinâmica e acompanhamento dos movimentos psicoperistálticos. Sua proposta é de uma intervenção não-invasiva e suave, buscando re-estabelecer o processo de auto-regulação psíquica impedido pelos bloqueios produzidos pelas couraças.
Segundo Merleau-Ponty (1999):
“... cada pessoa é seu próprio corpo, nele está impressa toda a história psicológica do sujeito, nele se revela sua psicodinâmica. Um corpo que traz a memória de emoções e sentimentos, muitos dos quais reprimidos a nível consciente”.
A análise bioenergética busca propiciar um contato maior com o próprio corpo, sensações, sentimentos e conteúdos de memória. É através de vivências que se permite "relembrar, repetir, elaborar".
Percebendo o organismo enquanto unidade comunicante, tenta-se captar qual a sua forma de ser e estar no mundo, como se protege, qual sua capacidade de contatar e expressar suas emoções, e como estas singularidades articulam-se com esta história de vida. Uma das tarefas da bioenergética seria resgatar essas memórias, poder expressar os sentimentos a elas vinculados e integrar seu conteúdo à personalidade.
Segundo Catanhede (1994):
"A análise bioenergética trata fundamentalmente de cuidar dos vínculos e do contato, e, portanto, dos afetos (...). Através da leitura corporal e da compreensão da história individual, devemos perceber como esse paciente vive, age, sente, defende, seu estar no mundo. Partindo de exercícios de respiração ou movimentos específicos, utilizando pois o sensório, bem como a percepção interna como ponto de identidade, de identificação de si, trazemos aqueles temas para o aqui e agora, procurando que o corpo volte a ter sua espontaneidade original perdida, com suas expressões adequadas de sentimentos, de pensamentos através da fala e de movimentos através da ação."
Segundo Oliveira (2000), ter consciência do próprio corpo seria, assim, a única maneira de realmente descobrir quem se é. Esta supressão dos sentimentos diminui a sensibilidade e responsividade do corpo, assim como a capacidade de concentração mental.
Segundo este mesmo autor, o objetivo da bioenergética é conjugar a promoção da auto-expressão, da sexualidade e vitalidade da pessoa, ao mesmo tempo, incentivá-las a abdicar do poder e controle sobre o seu corpo em prol da graça, da espontaneidade e da espiritualidade do corpo.
Durante os encontros de danças circulares é possível fazer a vivência adequada para a conscientização da imagem corporal. Quando o corpo se move de forma solta e leve é possível que surja uma nova organização do corpo, da energia psíquica e sua identidade. Segundo Almeida (1999), a partir das novas dimensões corporais há o fortalecimento do ego o que colabora para que a pessoa seja o que ela realmente é.
Para Wosien (2000), vida é movimento e quando as funções do movimento estão perturbadas, elas serão evidenciadas em comportamentos e na vida. Há interdependência e conexão entre funções do movimento e funções psicofísicas.
Através das danças circulares é possível acessar mecanismo de tensão e entrar em contato com as couraças musculares e caracterológicas dissolvendo-as pouco a pouco através do estímulo ao contato e desmistificação dos medos e bloqueios em um processo de autoconsciência e reafirmação do relacionamento com a natureza.
A awareness não se dá somente em nível cognitivo. Ela envolve os níveis sensório-motor, emocional e energético; é uma “awareness organísmica”.
2.3 Figura e fundo: O efeito da imagem em espelho
Nas danças de roda, é possível observar o efeito espelho em movimento. Embora todos os integrantes do grupo estejam fazendo o mesmo movimento, o lado oposto do círculo sempre parece estar se movendo na direção contrária.
Frances (2004) indaga se o fato de vermos o mesmo movimento que estamos fazendo em efeito espelho, portanto contrário, e nos confundirmos com este referencial, não teria um significado oculto.Segundo ela, muitas vezes nos confundimos durante a vida pois parece que estamos em direção contrária às demais pessoas quando na verdade elas estão fazendo o mesmo movimento que nós em posições diversas do circulo da vida. É somente o mesmo movimento em outra perspectiva.
A Psicologia da Gestalt dedica atenção ao estudo dos problemas da forma, dirigindo-se à percepção da dicotomia sujeito-objeto, fazendo propostas que envolvem a premissa básica da percepção das formas e estética. Segundo Miller (1980), o indivíduo tende a realizar a experiência baseada na forma, estrutura e unidade em decorrência da consideração da forma enquanto totalidade.
A psicoterapia dirige-se mais à forma que ao conteúdo, buscando conhecer sua estrutura e fundo. Segundo Dufrenne (2004), isso se dá a partir da experiência perceptiva, que muito se aproxima da experiência estética.
2.3.1 A integração da sombra
Quando as danças circulares ocorrem em torno de um centro composto por luz, as imagens dos dançarinos são projetadas na forma de sombra em paredes e objetos.
Na história a sombra é relacionada às trevas e possui, na maioria das vezes, conotação maléfica. Contudo, durante as danças, as sombras com sua energia tênue, adquirem o aspecto protetor. Movendo-nos em torno da luz, nossas sombras dançam à nossa volta. Quanto mais próximos da luz estivermos, maior será a projeção de nossas sombras.
Segundo Frances (2004), a sombra se torna protetora quando mudamos a forma de ver a história e aquilo que nos é imposto enquanto verdade. Quando aprendemos a mudar nossa atitude no presente e observar as experiências sob a perspectiva da aprendizagem, por mais dolorosas que estas experiências sejam, conseguimos transformar a sombra em um símbolo protetor.
A Gestalterapia dá ênfase ao caráter criativo do self, onde a experiência existencial é vista como um processo eminentemente criativo de um corpo-sujeito-mundo. A psicoterapia visa ampliar a experiência no aqui e agora para significar a ação criativa do indivíduo no processo de lidar com o ambiente. Assim, a dança pode ser considerada um local de contemplação da obra, com desvelamento de significados e instauração de sentidos.
3.0 O corpo, a expressão corporal e a dança na modernidade
Após séculos de hegemonia do pensamento religioso, que instituía o corpo como abrigo passageiro do espírito, impuro, índigo e culpado por seus prazeres, no século XX um movimento oposto, de resgate deste mesmo corpo é iniciado e seus prazeres readquirem espaço.
Em um resgate repleto de manuais de receita, bulas que garantem a saúde e práticas corporais localizacionistas e nem sempre eficazes, o homem afastou-se do caráter sacro do corpo e suas produções e entregou-se ao culto a beleza pela beleza. A modernidade afastou o homem de seu corpo, pois o cultuar e prestar atenção a si próprio tornou-se o culto ao belo estereotipado fortalecido pela ciência e a racionalidade.
Hoje, o “Eu” é afirmado através do corpo. É através dele que culturalmente dizemos quem somos e a que viemos.
Para Merleau-Ponty (1999), o corpo é entendido como uma totalidade, comparado a uma obra de arte no sentido que não se pode distinguir a expressão do que é Expresso. Isso só é aceitável por um contato direito e quando irradia sua significação sem abandonar seu lugar temporal e espacial.
O indivíduo não apenas pensa ou está em seu corpo; ele é seu próprio corpo e um conjunto de significações vívidas que caminham para o equilíbrio.
Com um ideal de corpo distante da realidade e modelo sociais que reforçam diariamente o inatingível, o indivíduo com a auto-imagem comprometida passa a questionar a sua permanência e identificação com os demais membros da sociedade. Se seu corpo não é um modelo de beleza e seu desempenho não é digno de coluna social, ele se entende como objeto alienado do mundo.
A cultura contemporânea valoriza objetos e atributos externos ao homem fazendo dele um objeto do próprio objeto. Reforça ainda, a cultura mecanicista e de consumo. Segundo esta perspectiva o homem deixa de ser homem para ser produto de uma cultura massificada e repleta de comunicações que comprometem o bem-estar em detrimento do estar em consonância com o que foi ditado pela moda.
Roupas, acessórios, alimentos, músicas e rotina diária, são ditados pela cultura do consumo e a necessidade de espetáculo.
Este movimento retira o homem de si mesmo, tolhe seu contato e o deixa sem base para a auto-regulação, o que pode resultar em baixos índices de auto-estima e neuroses. O homem deixa de viver para e por si mesmo para viver para e pelo outro.
Para a Gestalt a neurose surge a partir de interrupções no fluxo natural de abertura e fechamento de figuras, tornando-as inacabadas. Assim, o sujeito perde a capacidade de hierarquizar necessidades e não estabelece contato com o aqui e agora, provocando distúrbios na fronteira do contato.
Para Perls (1981) os distúrbios neuróticos surgem da incapacidade do indivíduo encontrar e manter o equilíbrio adequado entre ele e o resto do mundo. O neurótico é o homem sobre quem a sociedade influi demasiadamente. A neurose é uma manobra defensiva para proteger o indivíduo contra a ameaça de ser barrado por um mundo esmagador. Trata-se da técnica mais efetiva para manter o equilíbrio e o sentido de auto-regulação numa situação em que o indivíduo sente que as probabilidades estão todas contra ele.
A contemporaneidade incita o viver de passado e futuro, retirando dos indivíduos a possibilidade de viver no presente. Isto, segundo a Gestalt, gera a interrupção dos indivíduos, que ficam presos em gestalts incompletas e acabam por completar patologicamente ou simplesmente não completar suas gestalts. Quando isto acontece, o indivíduo deixa de apreciar o potencial de suas ações e se satisfazer no presente. A figura, que não foi totalmente completada, não é transferida para o fundo e não desaparece do campo, dando a sensação de insatisfação, insatisfação esta que passa a interferir na percepção das situações atuais.
As situações inacabadas insistem em voltar ao primeiro plano para serem concluídas: contaminam o campo sem deixar que a próxima figura emerja de forma clara e interferem na recuperação do equilíbrio organismo/meio.
Sendo a expressão corporal fruto de sentimentos e uma forma de interação com o meio, a mesma também fica comprometida. A ação de gestalts abertas e o excesso de informações externas comprometem a visão do indivíduo em relação a si próprio e o deixa susceptível ao consumo de referências corporais distorcidas, afirmando-se segundo estas referências impróprias para a sua saúde psíquica. Exemplo disso são as referências musicais atuais e as coreografias que com elas emergem, repletas de significado erótico e ícones para consumo.
A dança na modernidade adquiriu o caráter profano. É a dança social e popular, com finalidade de espetáculo, massificada, que desvaloriza a expressão construtiva do indivíduo.
Sendo o movimento das Danças Circulares justamente o oposto, é possível que a inserção destas em um meio doente promova a ruptura de paradigmas e mobilize os indivíduos pela busca da auto-regulação e saúde psíquica.
3.1 A análise nomoética das Danças Circulares: Dança e fenômeno
A análise nomoética das Danças Circulares permite o olhar claro, transparente, em relação ao fenômeno do sujeito no meio. Assim, é possível observar a dificuldade de expressão dos sujeitos, a redescoberta de sensações e consciência corporal, estabelecimento de novos significados e os fenômenos de interiorização, externalização da criatividade, do sentimento de amizade e das sensações de prazer.
Isso se dá porque durante os encontros de Danças Circulares os dançarinos entram em contato com a natureza externa, de si mesmos e dos outros, sendo possível vivenciar suas dificuldades e superá-las a cada momento que ousam se expressar. É possível se redescobrir sensorialmente e descobrir o mundo através da exploração do meio e dos indivíduos que compõem a roda. Este tipo de contato sensibiliza o sujeito e o faz perceber o aqui-agora preparando-o progressivamente para receber informações cada vez mais complexas sobre o meio, o que o retira do isolamento e o coloca no mundo.
O contato com a sensação de relaxamento, bem como a possibilidade de re-significação corporal e a possibilidade de perceber criativamente o corpo, também estão presentes durante os encontros de danças circulares e se mostram muito importantes no que diz respeito às suas potencialidades terapêuticas.
A possibilidade de experienciar a amizade, fazendo com que os indivíduos dediquem-se a outras pessoas e lhes dê carinho e afeto bem como a possibilidade do movimento oposto, de internalização com atenção voltada para o self também mostram o movimento terapêutico necessário para que o indivíduo perceba-se no mundo e fora dele, sendo um indivíduo que está no mundo, mas detêm propriedades próprias, únicas e que devem ser contempladas.
A chave de ouro da nomoética das Danças Circulares é do prazer e da possibilidade de experimentar este prazer de forma natural e sem conotação erótica, o que só é possível pela ação de todos os outros fenômenos citados. Este prazer representa o encontro puro com o próprio corpo.
4. O poder do encontro
Considerando que cada pessoa percebe o mundo segundo sua própria perspectiva, no grupo é possível observar e somar as perspectivas de todos os indivíduos tornando-a acessível a todos através da verbalização das sensações e leitura das expressões corporais. No grupo, não há uma perspectiva melhor ou correta, portanto, é possível que cada pessoa, com auxílio do focalizador, busque e encontre sua própria referência sobre os temas trabalhados e se auto-regule, tendo novas posturas no mundo a partir de referência de suas vivências pessoais e a experiência guiada pelas Danças Circulares.
O contato, tão discutido por Ribeiro, é estabelecido durante esta troca com o meio e é o que permite a mudança. O diferente não é introjetado passivamente pelo organismo, mas é assimilado, respeitando as características daquele num processo de ajustamento criativo.
Coerente com este conceito, Ribeiro (1995) afirma que “o modo como uma pessoa faz contato consigo e com o mundo expressa igualmente o grau de individuação, maturidade e entrega com que alguém vive um determinado momento”.
Quanto mais a pessoa se conecta com seu momento presente, maior sua possibilidade de estabelecer um contato pleno. Esse conceito é fundamental no trabalho em grupo, pelo fato destes se constituírem nem campo onde a pessoa se defronta com a diversidade nos mais variados aspectos, estabelece relações, experimenta o inesperado e revê sua própria referência.
As danças circulares têm como objetivo oferecer ao indivíduo um espaço onde ele possa se expressar livremente buscando com isso facilitar a comunicação, ampliar a conscientização sobre as experiências e resgatar a responsabilidade em relação a si mesmo, enfocando o aspecto emocional, as crenças colocadas e as ações que são feitas. Todas estas informações são agrupadas junto aos temas emergentes e são trabalhados pouco a pouco pelo grupo na medida em que cada um de seus integrantes levanta o tema verbalmente.
O grupo esta em constante transformação. Sua realidade externa (o que acontece a cada momento tanto no nível verbal quanto no não-verbal, bem como as contingências do lugar onde ele ocorre) afeta a realidade interna de cada um dos seus membros (inclusive o focalizador). Da mesma forma, as vivências e os processos internos de cada participante transforma a realidade do grupo como um todo. Assim, trata-se de uma realidade cujas partes são interdependentes, sejam elas conscientes ou inconscientes, coerentes ou divergentes, claras ou ambíguas.
Ribeiro (1999) afirma que:
“O grupo é uma realidade maior e diferente da soma dos indivíduos que o compõem. Tem tudo o que eles têm e transforma esse conteúdo em um continente de imensas e vastas possibilidades. O grupo é um fenômeno cuja essência reside no seu poder de transformação, no seu poder de escutar, se sentir, se posicionar, de se arriscar a compreender o processo de significado do viver e do responsabilizar-se”.
Assim, o grupo é o verdadeiro facilitador da awareness dentro dos encontros de Danças Circulares, e não a mensagem que a dança isoladamente se propõe a passar ou o focalizador que se propõe a ensiná-la ao grupo.
Considerações Finais
Através da pesquisa bibliográfica e da própria vivência dentro do movimento das Danças Circulares, é possível afirmar que as mesmas são excelente instrumento para o trabalho terapêutico em gestalterapia, pois, parecem estar em consonância com suas filosofias de base.
A psicologia da Gestalt, ainda sendo uma abordagem nova dentro da psicologia, mas bebendo de fontes tão antigas quanto a própria humanidade e tendo referência particular junto aos movimentos artísticos, deve investir em uma investigação mais aprofundada sobre as Danças Circulares e cogitar a possibilidade de utilizá-las em sua ação com grupos.
Criar novos instrumentos para psicoterapia é bom, mas resgatar e dar novo sentido aos antigos é uma virtude!
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